
1ª edição digital - ISBN nº 978-65-02-34036-3
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O conteúdo da investigação articula-se entre o livro digital e o documentário.
O site fornecerá as bases para a compreensão da tese.
Prepare-se para preencher a lacuna necessária para compreensão do Brasil atual.
Boa leitura.
O que a memória pública chamou de "grande imigração", os documentos oficiais chamavam de colonização. Ao conhecer os resultados desta investigação, você descobrirá quais objetivos orientaram essa nova estrutura, criada no final do século XIX e mantida até os dias atuais. Essa estrutura transferiu riquezas, propriedades, conhecimentos e empregos dos brasileiros para colonizadores estrangeiros e seus descendentes, produzindo desigualdades e hierarquias geracionais.
Por meio da recuperação de documentos históricos, a investigação traz à luz um passado obscurecido pela memória pública: a estrutura de colonização do Brasil republicano e sua conexão com o colonialismo internacional.
O Brasil participou do colonialismo internacional que também atingiu a África e a Ásia, mas se distanciou das políticas internacionais de descolonização, consolidadas após o fim da Segunda Guerra Mundial. Por meio de uma engenharia social promovida pelo Estado, esse projeto de colonização definiu quais grupos seriam beneficiados e quais permaneceriam em posição subalterna, à margem da sociedade.
A descolonização do Brasil depende do combate ao Mito da Imigração.
14 potências se reúnem na Conferência de Berlim e definem princípios jurídicos para legitimar a expansão colonial.
Esse evento ficou conhecido como Partilha da África, e o período, como Novo Imperialismo.
O Brasil passa por um golpe militar e uma mudança de regime de político.
A República brasileira reorganizou terras, povoamento, imigração e colonização.
Seria apenas uma coincidência temporal que a "grande imigração" para o Brasil tenha ocorrido no mesmo período da expansão colonial pelo mundo?
A República brasileira, orientada por projetos de "branqueamento" e "europeização", incorporou o repertório jurídico-colonial do Novo Imperialismo?
Seria possível que o vocabulário da “colonização” estivesse sendo utilizado no Brasil com significado distinto daquele empregado pelas grandes potências internacionais?
"No edifício tombado, onde hoje se encontra o Museu da Imigração do Estado de São Paulo, acham-se, logo em sua entrada, duas placas que definiam sua antiga subordinação e atribuição. Na primeira placa, lê-se: Governo do Estado - Secretaria da Agricultura. Na segunda placa: Departamento de Imigração e Colonização."
Hugo Santarem Rodrigues.

Placa do antigo Departamento de Imigração e Colonização, preservada no atual Museu da Imigração do Estado de São Paulo.
Ato de deslocar-se de uma região para outra.
Estrutura estatal destinada ao povoamento e à fixação de pessoas no território. No Brasil, ela incluiu:
reordenação de terras · companhias colonizadoras · núcleos coloniais · colonos · subsídios de passagens · seleção e hierarquias raciais.
A estrutura de colonização no Brasil se assemelhava a estrutura de colonização das grandes potências colonizadoras na África e Ásia?
Imigrante
Pessoa que chega a outro país para nele estabelecer residência.
Colono
Pessoa instalada em um núcleo ou projeto de colonização.
Colonizador
Estado, companhia, proprietário, colono ou outro agente que promove a colonização.
Colonialismo
Estrutura de dominação estabelecida pela colonização, em que um povo submete outro, controlando seu território, explorando seus recursos e subordinando a população local à nova ordem social imposta pelos colonizadores.*
André Rebouças
Precisavam reduzir a pressão demográfica de seus países, conduzindo seu excedente populacional para colônias ultramarinas. Colonos no exterior enviavam remessas de dinheiro para seus países de origem. Colonos que prosperavam voltavam periodicamente com suas novas riquezas.
Lucravam com passagens, venda de terras, impostos, etc.
Criaram uma nova sociedade em que os colonos e imigrantes apoiavam a nova estrutura que os beneficiava.
Brasileiros transformados em mão de obra barata.
O domínio do território foi sendo gradativamente transferido para colonos estrangeiros.
A mudança de regime abre o período de reorganização federal das políticas de terra, povoamento e imigração.
Todo o proprietario territorial, que desejar collocar immigrantes europeus em sua propriedade, tem direito aos favores constantes deste decreto…
Sobre o numero total das familias de immigrantes que forem localisados, poderão ser admittidos 25% de nacionaes,
Art. 5: Os lotes ruraes só poderão ser concedidos a immigrantes extrangeiros de procedencia européia que se' queiram dedicar á agricultura e a nacionaes em numero nunca maior de 20% desses lotes…
Art. 53. Em nucleos auxiliados pela União, a porcentagem de lotes destinados a nacionaes não deverá exceder de 10% dos reservados para agricultores estrangeiros.
"Não basta, todavia, introduzir homens.
Na grande maioria dos casos o immigrante recem-chegado carece de ser guiado nos seus primeiros passos quasi pela mão.
(...) é indispensavel que elle ache auxilios e facilidades de outra natureza, que o habilitem a collocar-se de prompto, já nas industrias fabris, já na agricultura, segundo a sua aptidão e o seu desejo."
Brasileiros foram excluídos da ocupação territorial organizada pelo Estado no mesmo período em que colonos estrangeiros eram instalados em terras produtivas por meio de políticas de colonização e acesso à propriedade. Esse processo contribuiu para a formação e expansão da favelização brasileira.
O sistema consolidou formas de trabalho precário para uma grande parcela da população brasileira, enquanto políticas de colonização favoreceram a instalação de estrangeiros e seus descendentes como proprietários. O planejamento colonial favoreceu a formação de patrimônio e a transmissão intergeracional de riqueza entre as populações beneficiadas por essas políticas.
A valorização das regiões de colonização estrangeira foi acompanhada pela construção de hierarquias e estereótipos em relação às regiões cuja população permaneceu majoritariamente formada por brasileiros que já habitavam o país antes dos projetos de colonização.
O sistema criou assimetrias econômicas, sociais e de poder que se reproduziram nas relações de trabalho, na urbanização das cidades e no acesso às posições de prestígio social, consolidando desigualdades materiais e hierarquias simbólicas duradouras.
O documentário demonstra como a gramática da colonização estava inserida no Brasil republicano e seu contexto internacional.
A pergunta que faltava ser respondida era: o conceito de colonização no Brasil estava sendo empregado da mesma forma que aquele promovido pelas potências colonizadoras internacionais?
A recuperação das fontes primárias permitiu responder a essas perguntas e entender o contexto de como o sistema colonialista foi imposto no Brasil republicano.
Uma leitura essencial para entender o Brasil, acompanhada de fontes e referências necessárias ao exame crítico da tese.
O e-book sintetiza anos de investigação e se articula ao documentário.
A investigação foi feita sem financiamento externo.
Ao adquirir o e-book, você estará contribuindo para aprofundar a pesquisa e ampliar o alcance da informação.
BIOGRAFIA
Em 2004, iniciei uma pesquisa independente sobre trabalho escravo contemporâneo que resultou no longa-metragem Pureza. Essa pesquisa começou quando fui morar no Maranhão e passei a viajar por seu interior. Conheci pessoas e suas histórias, conectei-me com elas e compreendi de perto como as estruturas sociais atravessam nossas vidas, especialmente quando perdi uma pessoa muito próxima em decorrência da violência da região. Essa experiência moldou profundamente meu percurso de vida.
O filme foi lançado somente em 2022, mas a minha pesquisa autoral e meu propósito não foram realizados com o filme: a minha ideia original buscava compreender quais estruturas mantinham algumas pessoas em um sistema violento e ultrapassado, enquanto outra parcela da população se beneficiava desse mesmo sistema. Meu desejo de contar a história dela era uma forma de, por meio da arte e da investigação, contribuir para que outras pessoas pudessem ser resgatadas dessa estrutura injusta, assim como Pureza havia feito ao buscar o próprio filho.
Durante esse processo, fui compreendendo como elites selecionavam partes do passado e produziam recortes historiográficos que contribuíam para a preservação de suas posições de prestígio, ao mesmo tempo que se apropriavam de causas legítimas em benefício próprio. Ter vivenciado essas realidades me causava profunda angústia.
Meu ponto de vista tem raízes em minha história pessoal. Meus pais são do interior da Bahia, onde começaram a trabalhar desde a infância, inclusive com alfabetização de adultos. Migraram para Brasília e dedicaram a vida profissional à assistência social. Meu pai, negro, nascido em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, trazia consigo o orgulho dessa coincidência simbólica. Esse ambiente e minhas vivências permitiram-me articular as experiências empíricas às minhas pesquisas artísticas e acadêmicas.
Por 20 anos, trabalhei na área de comunicação e arte, período em que tive o privilégio de receber prêmios e outros reconhecimentos locais e internacionais tanto como criativo em agências de publicidade quanto como fotógrafo. Formei-me em publicidade (IESB – Brasília), pós-graduei-me em artes visuais (Senac – Brasília), estudei fotografia na School of Visual Arts (Nova York) e cinema na AIC (São Paulo) e na Roteiraria.
Apesar da minha formação e dos reconhecimentos profissionais, via-me distante de poder realizar o propósito que havia orientado minha pesquisa desde o início do percurso que deu origem a Pureza, em 2004.
A retomada desse propósito ganhou forma com o Projeto Interior, em 2014, voltado à investigação da minha ancestralidade: a partir de um teste de DNA, busquei paralelos entre minha ascendência e a formação do Brasil.
O papel dos movimentos migratórios na construção da cultura brasileira tornou-se, então, o eixo central da minha metodologia.
Durante a pandemia, voltei a me dedicar mais intensamente a esse caminho, que considero coerente com meu propósito. Depois de investigações empíricas no Brasil e na África, ampliei o campo de investigação para os antigos territórios coloniais portugueses e suas conexões com o Brasil colonial. Foi nessa trajetória que recuperei conexões e recortes historiográficos a partir dos quais formulei os conceitos que denominei Indo-Brasilidade e O Mito da Imigração, desenvolvidos como categorias interpretativas e métodos críticos de leitura histórico-social, posteriormente incorporados à minha pesquisa acadêmica.
No início de 2026, aos 43 anos, iniciei meu mestrado em Estudos Brasileiros na Universidade de Lisboa, em Portugal. Minha tese sistematiza e desenvolve o percurso de pesquisa que deu origem a Pureza e, posteriormente, às formulações de O Mito da Imigração e Indo-Brasilidade.
Eu sempre convivi com dimensões que, muitas vezes, pareciam conflitantes: de um lado, a busca pela arte, pela criação e por uma visão otimista do mundo; de outro, uma necessidade intensa de compreender fatos, estruturas e padrões, acompanhada por períodos de hiperfoco em investigação e pesquisa. Um lado pedia aventura; o outro, rotina. A tensão entre essas necessidades, somada à intensidade com que eu procurava compreender a realidade, frequentemente me causava grande mal-estar e depressão. Minha tendência a buscar padrões, estabelecer conexões criativas e questionar meus próprios vieses passou a ser compreendida sob uma nova perspectiva com meu diagnóstico tardio de neurodivergência, aos 44 anos, o que me ajudou a compreender meu percurso biográfico e os modos como investigo, crio e estabeleço conexões, reforçando também um princípio que orienta minha pesquisa: novas informações obtidas no presente podem ampliar a nossa compreensão sobre o passado.
Conheça mais do meu trabalho aqui.
Normas e critérios definem quem pode ingressar nos programas e em que proporção.
Passagens, lotes, instalação, assistência e infraestrutura são direcionados aos grupos selecionados.
O acesso territorial favorece estabilidade, produção, acumulação e transmissão de bens.
Grupos com menor acesso permanecem sujeitos a deslocamento, precarização e informalidade.
Vantagens e desvantagens acumuladas passam a organizar oportunidades entre regiões, raças e gerações.







Documentário realizado por:
Hugo Santarem
Pesquisa e tese
Roteiro
Direção
Fotografia
Locução e apresentação
Edição adicional
Vito Quintans
Edição
Animação
Trilha sonora original
Sound Design
Pesquisa adicional de imagens
Para compreender o Brasil do presente, foi preciso recuperar uma disputa definida por um golpe de Estado: